A obesidade é atualmente reconhecida como uma doença crônica, multifatorial, progressiva e recidivante, associada a importantes complicações metabólicas, cardiovasculares, inflamatórias e funcionais. Durante décadas, o foco principal do tratamento esteve centrado apenas na redução do peso corporal. Entretanto, a medicina moderna da obesidade passou a compreender que o maior desafio terapêutico não é apenas emagrecer, mas manter a perda de peso a longo prazo.
Após o emagrecimento, o organismo desencadeia uma série de adaptações biológicas destinadas a recuperar o peso previamente perdido. Essas respostas incluem:
- Aumento da fome;
- Redução da saciedade;
- Diminuição do gasto energético;
- Alterações neuro-hormonais compensatórias;
- Aumento do chamado “food noise”;
- Maior eficiência metabólica para armazenamento energético.
Esses mecanismos explicam por que a recuperação ponderal é extremamente frequente após dietas rigorosas isoladas ou interrupção precoce do tratamento farmacológico.
Nos últimos anos, os medicamentos incretínicos (Liraglutida, Semaglutida e Tirzepatide) transformaram o tratamento da obesidade. Entre eles, a Tirzepatida emergiu como uma das terapias mais eficazes já desenvolvidas para redução de peso corporal, promovendo resultados anteriormente observados apenas em parte dos pacientes submetidos à cirurgia bariátrica. Mais recentemente, os estudos SURMOUNT-4 e SURMOUNT-MAINTAIN ajudaram a responder uma das questões mais importantes da prática clínica contemporânea:
O que acontece quando o tratamento é interrompido ou reduzido após grande perda de peso?
O que é a tirzepatida?
A tirzepatida é um agonista dual dos receptores que ocupam a superfície das células em diversos tecidos diferentes:
- GIP (glucose-dependent insulinotropic polypeptide)
- GLP-1 (glucagon-like peptide-1)
Sua ação promove:
- redução importante do apetite;
- aumento da saciedade;
- melhora da resistência insulínica;
- redução do comportamento alimentar hedônico;
- melhora do metabolismo glicídico e lipídico.
Os estudos clínicos demonstraram reduções médias de peso superiores a 20% em muitos pacientes com obesidade, além de benefícios importantes sobre:
- glicemia;
- pressão arterial;
- perfil lipídico;
- inflamação metabólica;
- esteatose hepática;
- qualidade de vida.
O conceito moderno: obesidade como doença crônica
Os dados mais recentes reforçam um conceito fundamental:
a obesidade deve ser tratada como doença crônica e não como condição temporária.
Assim como ocorre com:
- hipertensão arterial;
- diabetes mellitus;
- dislipidemia ( cholesterol e triglicerides);
A interrupção do tratamento frequentemente leva à reativação dos mecanismos fisiopatológicos da doença.
Essa visão é sustentada por estudos robustos envolvendo terapias incretínicas, especialmente os estudos SURMOUNT-4 e SURMOUNT-MAINTAIN com tirzepatida.
O estudo SURMOUNT-4: o impacto da interrupção da tirzepatida
O SURMOUNT-4 foi um estudo internacional que avaliou pacientes com obesidade após importante perda ponderal induzida pela tirzepatida.
Inicialmente, todos os participantes utilizaram tirzepatida por aproximadamente 36 semanas em fase aberta, alcançando perda média de peso expressiva. Após esse período, os pacientes foram randomizados para:
- continuar tirzepatida;
ou - substituir a medicação por placebo (soro fisiológico)
Os resultados foram extremamente relevantes.
Os pacientes que continuaram o tratamento:
- mantiveram e até ampliaram a perda ponderal;
- preservaram os benefícios metabólicos;
- apresentaram manutenção da melhora cardiometabólica.
Por outro lado, os pacientes que interromperam a Tirzepatida:
- recuperaram parcela significativa do peso perdido;
- apresentaram piora progressiva de parâmetros metabólicos;
- demonstraram reativação do processo fisiopatológico da obesidade.
O SURMOUNT-4 consolidou a evidência de que a interrupção da terapia incretínica frequentemente leva ao reganho ponderal, reforçando a necessidade de estratégias de manutenção prolongada.
SURMOUNT-MAINTAIN: uma nova pergunta clínica
Embora o SURMOUNT-4 tenha demonstrado os efeitos da interrupção da terapia, permanecia uma questão extremamente importante na prática médica:
Seria necessário manter doses altas indefinidamente para preservar os resultados?
O estudo SURMOUNT-MAINTAIN, publicado no periódico The Lancet em 2026, foi desenvolvido justamente para responder essa pergunta.
Metodologia do SURMOUNT-MAINTAIN
O estudo acompanhou adultos com obesidade durante 112 semanas.
Todos os participantes iniciaram tratamento com tirzepatida em doses progressivamente elevadas até a dose máxima tolerada (10 mg ou 15 mg), associada a:
- orientação nutricional;
- atividade física;
- intervenção comportamental.
Após 60 semanas de emagrecimento intensivo, os pacientes que apresentaram boa resposta terapêutica foram randomizados em três grupos:
- manutenção da dose máxima;
- redução da dose para 5 mg;
- suspensão da medicação com uso de placebo.
Principais resultados do SURMOUNT-MAINTAIN
Os resultados demonstraram de maneira clara que:
manter o tratamento proporcionou superior manutenção da perda de peso.
Ao final de 112 semanas:
- os pacientes que mantiveram a dose máxima apresentaram redução média de aproximadamente 22% do peso corporal;
- os pacientes que reduziram para 5 mg mantiveram perda média de cerca de 17%;
- os pacientes que interromperam o tratamento permaneceram com perda média inferior a 10%.
A importância da manutenção terapêutica
Talvez o dado mais relevante do estudo tenha sido a análise da manutenção da perda inicialmente conquistada.
Entre os pacientes que estabilizaram o peso após emagrecimento:
- a manutenção da dose máxima preservou cerca de 96% da perda ponderal inicial;
- a redução para 5 mg preservou aproximadamente 68%;
- o placebo preservou apenas cerca de 43%.
Além disso:
- 77,5% dos pacientes em dose máxima mantiveram pelo menos 80% do peso perdido;
- apenas 10,4% dos pacientes placebo conseguiram o mesmo resultado.
Esses dados reforçam que o organismo tende biologicamente a recuperar o peso quando o tratamento é interrompido.
Um dos achados mais importantes: redução de dose pode funcionar
O SURMOUNT-MAINTAIN trouxe uma contribuição inédita para a medicina da obesidade:
reduzir a dose não equivale necessariamente a perder todos os benefícios.
Mesmo com redução para 5 mg:
- muitos pacientes conseguiram preservar parcela substancial da perda ponderal;
- houve manutenção de benefícios metabólicos;
- a taxa de reganho foi significativamente menor que no grupo placebo.
Esse conceito abre espaço para estratégias individualizadas de manutenção, especialmente em pacientes com:
- necessidade de reduzir custos;
- maior sensibilidade gastrointestinal;
- preferência por menor intensidade terapêutica;
- estabilização clínica prolongada.
Benefícios metabólicos mantidos com o tratamento
Os estudos demonstraram que a manutenção da Tirzepatida não preserva apenas o peso corporal.
Houve manutenção de melhora em:
- glicemia;
- resistência insulínica;
- pressão arterial;
- triglicerídeos;
- colesterol não-HDL;
- circunferência abdominal.
Entre pacientes com pré-diabetes:
- mais de 90% dos indivíduos que permaneceram em dose máxima mantiveram HbA1c em faixa normal.
Isso sugere importante potencial na prevenção da progressão para diabetes tipo 2.
Segurança e tolerabilidade
Os efeitos adversos observados foram predominantemente gastrointestinais:
- náusea;
- diarreia;
- constipação;
- vômitos.
Na maioria dos casos:
- foram leves ou moderados;
- ocorreram principalmente durante escalonamento de dose;
- apresentaram melhora ao longo do tratamento.
Eventos graves foram incomuns.
Implicações práticas para pacientes e profissionais
Os estudos SURMOUNT-4 e SURMOUNT-MAINTAIN mudam profundamente a forma como entendemos o tratamento da obesidade.
Hoje sabemos que:
- a obesidade possui forte regulação biológica;
- o reganho ponderal não representa “falta de força de vontade”;
- a manutenção do tratamento frequentemente é necessária;
- estratégias individualizadas de dose podem ser consideradas em alguns pacientes.
O objetivo do tratamento moderno não é apenas promover emagrecimento rápido, mas:
sustentar saúde metabólica a longo prazo.
Considerações finais
A tirzepatida representa um dos maiores avanços já observados no tratamento clínico da obesidade.
As evidências atuais demonstram que:
- a continuidade do tratamento proporciona maior estabilidade ponderal;
- a suspensão frequentemente leva ao reganho de peso;
- a redução de dose pode ser uma estratégia viável em casos selecionados;
- os benefícios cardiometabólicos acompanham a manutenção da perda ponderal.
Os estudos SURMOUNT-4 e SURMOUNT-MAINTAIN reforçam definitivamente que a obesidade deve ser manejada como doença crônica, exigindo abordagem contínua, individualizada e baseada em evidências científicas.